Este não é um post comum. Esse post vai ser chato. Trata-se de uma resposta a um post de um blog que citou uma matéria minha. Leia se não tiver nada pra fazer e quiser opinar para algum dos lados.
Há pouco tempo atrás eu postei um texto poético falando sobre a ciência. E usei uma figura de linguagem poética, chamada personificação. Um blog anti-ateísta (Quebrando o encanto do neoateísmo) achou esse post, e disse que essa personificação da ciência é uma técnica neo-ateísta. O texto por inteiro você vê aqui.
Como ele usou material meu, sinto-me no direito de replicar:
Segundo ele:
“Esse (personificação da ciência) é mais um estratagema de uso popular. Nele, o neoateu tenta atribuir características humanas positivas (como “humildade” ou “pensamento crítico”) a um “ente” despersonalizado, normalmente acompanhado de atribuir características opostas ao “ente” Religião (como “soberba” ou “comodidade”). Toda vez que você ler ou ouvir “A Religião diz isso/é assim”, “A Ciência diz isso/é desse jeito” já fique com o alerta ligado. Essa fraude pode ser usada de várias formas e em conjunto com outras técnicas…“
O que me impressionou foi o final. Ele assumiu que personificar é uma fraude, sem mais argumentos. Ora, terei que explicar pra ele que a personificação é só um jeito mais simples de explicar as coisas. Quando eu digo, por exemplo, que a Ciência é humilde, não é uma fraude. Eu estou apenas economizando caracteres e a paciência do meu leitor para dizer que as pessoas que aplicam o método científico admitem que não conhecem as explicações para tudo. É um recurso didático.
Ele apresenta o meu texto, que voces podem ver nesse link.
E depois diz bem assim:
O problema dessa idéia é ser totalmente ilógica, pois não existe a “Ciência” e sim a aplicação do método científico em pesquisas para descobrir as relações naturais entre alguns fenômenos.
Ele se apressou em classificar a personificação como ilógica. Sem argumentos, disse que não existe a Ciência como um ente personalizado, e que por isso, as características humanas atribuídas à ela são ilógicas. Correndo o risco de ser redundante, as características humanas são um recurso de simplificação da explicação.
Além disso, os resultados cientificos (principalmente hoje em dia) não são 100% confiáveis, pois o método cientifico pode ser usado de forma fraudulenta por motivos ideológicos.
Para mostrar que os resultados científicos não são totalmente confiáveis, mostrou um gráfico, ilustrando erros de conduta de cientistas, deslizes morais e éticos, etc.
Sim, a ciência é falha. Mas com certeza é o método científico que nos apresenta mais respostas consistentes para as perguntas que fazemos.
“Religião” e “Ciência” são termos usados para designar um corpo de conhecimentos manuseados por humanos em ramos diferentes. Um “conjunto de informações” não possui atributos humanos nem “diz” nada – quem fornece e utilizada dessas informações somos nós, homens, de acordo com interesses específicos. Mesmo assim, quase sempre há divergência, portanto, a opinião é “desse e daquele cientista” e não da “Ciência”.
Novamente ele volta a questionar a personificação do método científico que eu fiz, dessa vez dizendo que há opiniões diferentes dentro da ciência, e que por isso ela não tem atributos humanos.
Não raro o neoateu diz que “A Religião tem medo que a Ciência faça tal pesquisa”, o que demonstra a enorme falta de base filosófica.
Na verdade, não é tanta falta de base filosófica. Religiosos como Lutero já reconheceu o potencial da razão(principio basico da ciencia) de abalar os fundamentos religiosos, como se pode observar nessa citação:
“A razão deveria ser destruída em todos os cristãos. Ela é o maior inimigo da Fé. Quem quiser ser um cristão deve arrancar os olhos de sua razão.” Lutero, fundador da igreja luterana.
E a conclusão do texto dele é essa:
Uma besteira total, mas que possivelmente ainda é utilizada por ter forte poder de lavagem cerebral e auto-convencimento. É praticamente uma versão moderna da “Deusa Razão” usada na época da Revolução Francesa. Podemos refutar de cara, embora, eu, particularmente, não espere que o aplicador da técnica vá largar tão facilmente a idéia errônea de que a “Ciência é humilde, é pacata”, etc.
Os trechos em negrito mostram que ele acredita que é possível refutar esses conceitos com o único argumento de que não se pode personificar algo que não é um “Ente personalizado”, e que se você personificar, as características que você atribuir estarão falsas. Para exemplificar esse argumento, ele mostrou um aspecto ruim da ciência para mostrar que ela não é boa como eu idealizei. Aliás, não sei de onde que ele tirou que as pessoas consideram todos os resultados científicos totalmente confiáveis. No método científico, qualquer conclusão tem que ser refutável de alguma forma pra ser válido. Cabe ao opositor o ônus da prova.
Depois ele mostra um vídeo de uma discussão teísta ateu, em que o teísta diz que tem certas coisas que a ciência não pode explicar, apesar de serem racionalmente aceitas.
Entre essas, ele citou:
- Verdades lógicas e matemáticas. Segundo ele, a ciência pressupõe verdades lógicas e matemáticas. Eu discordo. A noção de lógica e matemática tem uma explicação científica. Vou pegar um exemplo simples de verdade matemática: “Dividir por zero é impossível”. A pessoa que pensou nisso pela primeira vez com certeza não teve essa ideia do nada. Todo o raciocínio até chegar a essa conclusão é explicado cientificamente através da matemática, que foi evoluindo de coisas simples como as 4 operações básicas. E até mesmo essas verdades, como 2+2=4, são comprovadas cientificamente.
-Verdades metafísicas – O que ele chama de verdades metafisicas não se trata de verdades, mas sim de hipóteses. E elas não servem de explicação, pois não podem ser comprovadas ou refutadas.
-Crenças éticas sobre opinião de valor – Todos os conceitos de moral são explicados por uma parte do nosso cérebro que avalia noções de bem e mal, certo e errado. Talvez não seja possível mensurar (dizer que tais pessoas foram mais boas ou mais malvadas que outras). Mas todos nós temos conceitos morais que podem sim ser explicados pelo método científico. Por exemplo: Nós achamos que é errado ferir alguém pois aquela pessoa está sentindo algo que eu não gostaria de sentir.
-julgamentos estéticos – Esse é o mais fácil de refutar. Por exemplo: é cientificamente explicado por que os homens em geral gostam de mulheres com peitos grandes, cintura fina e quadril largo, porque geralmente, esses são indicadores de altos níveis de estrogênio e uma boa parceira sexual.
- A ciência não pode ser justificada pela ciência. Um argumento muito vago. Quanto à velocidade da luz, todas as medições feitas até agora indicam que essa velocidade é constante, não há um fato que negue isso até o momento.
E vale ressaltar que quem quer que tenha cortado o vídeo pro youtube “esqueceu” de mostrar a resposta à esses argumentos, que eu gostaria muito de ver.
Peço que o autor do post em questão respondesse aos meus contra-argumentos, se não estiver ocupado demais classificando argumentos ateístas.
Escrito por whydontyouthink 
